sexta-feira, abril 18, 2008

Rio, RJ - Off-Tap - Os Produtores

Texto de Macksen Luiz, crítico de teatro do Jornal do Brasil, publicado em 06.04.2008, sobre "Os Produtores":

Elenco enfrenta bem os desafios do gênero musical

O filme Primavera para Hitler, que deu origem ao musical "Os Produtores", já tinha como o melhor de seu humor a contramão do correto. Para os produtores que desejam encontrar o sucesso financeiro com o fracasso artístico, e para tanto escolhem um personagem injustificável como estrela de sua pantomima musical, o êxito chega por via transversa. Mel Brooks, no filme e na comédia musical, usa os meios tradicionais do mundo do entretenimento no seu modelo americano para revelar o nonsense desse universo. Brooks, como inteligente comediante e dominando os escaninhos do show business, subverte a perspectiva do negócio.

"Os Produtores" leva até o limite do grotesco as referências a alguns elementos formadores do panteão da Broadway. A loura exuberante, as superstições profissionais e as fantasias exibicionistas são revistas por meio de suas imagens convencionais, como as das dançarinas em "linha do coro" ou pelo sapateado. A trilha musical segue essa mesma linha de explorar a convenção para reforçar o estilo e gramática do gênero. Nada é (e nem deseja ser) inovador, apenas dar verniz, levemente atrativo, a um entrecho bem achado.

A versão brasileira, que tem tradução e direção de Miguel Falabella, reproduz, por questões contratuais, a original americana. Ainda que seja necessário manter a concepção, Falabella reuniu equipe de músicos, atores, cenógrafo, figurinista e técnicos que, por mais que se norteiem por pauta importada, consegue imprimir à montagem ar maliciosamente local.

As citações brasileiras são de oportuna comicidade e as recriações visuais e de atuação se deslocam, com prudente "desrespeito", da produção original. A capacidade desse grupo de enfrentar os desafios técnicos que uma comédia musical oferece é digna de registro.

Cantar, dançar e atuar num gênero com recente presença no mercado teatral demonstra que há geração de atores, bailarinos e cantores bem preparados para tais atuações. Mesmo com essa capacitação e apesar da boa transposição do texto e das letras, se perde algo do humor, da ironia e das piadas. Mas, afinal de contas, são perdas residuais.

Os números de conjunto são bastante divertidos, com o uso de recursos variados para provocar todo tipo de efeitos, como a explosão de fogos e os divertidos figurinos da apoteose no show Primavera para Hitler, a cena mais delirante do musical.

Apesar de necessitar de alguns ajustes no som, e em detalhes da iluminação, que abafaram as vozes e a orquestra, e atingiram o ritmo, na estréia de quinta-feira, "Os Produtores" confirma a crescente intimidade nacional com a comédia musical. O coro se mostra conjunto afinado e se sai a contento em cada um das suas intervenções.

Edgar Bustamante faz com empenho o nazista desvairado. Maurício Xavier conquista a platéia com a desabrida composição da Carmen Ghia. Sandro Christopher transita bem entre as ambigüidades cômicas do "pior diretor do mundo". Juliana Paes empresta sua figura à loura estereotipada, cantando com voz bem ensaiada. Vladimir Brichta se entrega de maneira bastante expansiva, tanto vocal quanto corporalmente, ao tímido co-produtor. O ator, sem ser cantor, desempenha com eficácia várias canções, o que também acontece com Miguel Falabella, que revive, uma vez mais, a sua inconfundível personalidade cênica.

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